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OuremReal

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11.03.16

A primavera marcelista


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Passada a euforia com que a comunicação social do regime, de um modo geral, nos mostrou o cerimonial da tomada de posse do novo Presidente da República e depois de ter lido e ouvido tantos elogios, alguns mesmo de onde não era suposto que viessem, sinto-me um tanto confuso.

Para quem sempre apoiou, gostou, elogiou o professor, o político, o comentador e o considerou o melhor de todos os que se candidataram à Presidência da República e nele terão votado, é perfeitamente normal e compreensível que se sintam satisfeitos e entusiasmados com a sua chegada a Belém.

Quanto aos que, ao invés, não nutriam tanto apreço assim por quem vinha da mesma área política do seu antecessor, por quem teve o trajeto político-partidário que é de todos conhecido, por quem apoiou o anterior governo de direita que fez da austeridade “custe o que custar” a sua bandeira e da subserviência aos interesses estrangeiros a sua maior preocupação, por quem, nas grandes causas, quando não se identificava, declaradamente, com a direita, optava por uma opinião ziguezaguiante, nem carne, nem peixe, de modo a não se comprometer, ouvi-los e vê-los, agora, a debitar tantos elogios, a formular tantas esperanças e confianças, fico na dúvida, porque não consigo perceber se tudo é a manifestação de um sentir genuíno que andou escondido num passado recente e que, agora, porque é de bom tom, resolveu vir à luz do dia, ou se, ao contrário, tudo não passa de um sentir de circunstância, mais ou menos oportunista.

Sim, porque eu não acredito que um discurso de posse bem feito, bem pensado, com a inteligência suficiente para dizer o que as pessoas querem ouvir e a opção de dar a toda a cerimónia do dia da posse um cariz a puxar para uma certa “extravagância” monárquica sejam suficientes para construir um bom Presidente da República. Tão pouco me parece bastante para mudar, ou reformular opiniões numa área de alguma exigência como esta de saber que qualidades deve ter um Presidente da República.

O que se está a passar traz-me à memória aquele período que ficou conhecido por “primavera marcelista”, quando, em 1968, Marcelo Caetano foi nomeado pelo Presidente da República de então, Américo Tomás, para suceder a Oliveira Salazar na presidência do Conselho de Ministros. Vinha aí a primavera política! Era o fim da ditadura, da guerra colonial, da censura, da pide, dos presos políticos...e de tudo o que nos atormentava! A euforia era tanta que até alguns opositores ao regime acreditaram! Muitos Portugueses, sem qualquer formação política, acabaram por depositar grandes esperanças na “transformação” que lhes era anunciada. Só que a tal primavera não passou de umas ligeiras “abertas” em que um sol envergonhado alternou com muitas nuvens que aos poucos se foram adensando. E a ditadura, a guerra, a censura, a pide (depois dgs), os presos políticos, isso tudo só terminaria com o 25 de Abril de 74. Marcelo Caetano também era um bom comunicador! As suas “conversas em família” através da televisão, semanalmente, tentavam construir o pensamento dos Portugueses de acordo com o que o regime achava conveniente para o contexto em que se vivia.

Não comparando, porque não é possível comparar o final da década de 60 do século passado com o tempo atual, poder-se-à dizer que, também agora, como então, paira na opinião pública uma certa ideia, à volta de uma personalidade, outra vez Marcelo, que, por força de tanto lhe atribuírem elogios, acaba por se transformar no depósito de todas as esperanças e no risco, óbvio, de se vir a revelar uma desilusão. Outra vez!

 

O.C.

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