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OuremReal

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23.06.13

As nossas Troy(i)cas


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A continuidade da Troyca internacional parece estar em risco, a avaliar pelas notícias recentes que dão conta de desentendimentos entre os parceiros europeus (União Europeia e Banco Central Europeu) e o Fundo Monetário Internacional. O reconhecimento de falhas nos programas de resgate a países como a Grécia, o Chipre e Portugal e as consequências desastrosas que estão à vista de todos, evidencia, pelo menos, duas coisas:

Por um lado, a fragilidade, a impreparação, as insuficiências e a falta de solidariedade da Europa, enquanto união de países que pretende ser.

Por outro, a arrogância e excesso de poder do capital internacional que interfere na vida dos cidadãos, como quer e lhe apetece, impõe medidas, procedimentos, sacrifícios, sempre em função do que entende ser importante para a salvaguarda dos seus interesses, esquecendo as especificidades de cada país, as dificuldades de cada povo, o seu estado de desenvolvimento, não cuidando de prever, de maneira séria e prudente, o impacto das medidas que impõe em função das especificidades de cada um.

Estamos perante um poder capitalista que, ao longo de décadas, vem fazendo um caminho de mentira, de falsa abundância, de facilidade e, muitas vezes, de esbanjamento, tirando sempre proveito de tudo isso. Um poder económico que se apercebe que o filão de que se alimentou, anos a fio, está a chegar ao fim e, de repente, acorda e decide que tem que encontrar o bode expiatório para os seus desvarios e tem que encontrar quem pague a pesada fatura do festim que promoveu. E nada mais fácil do que virar-se para os mais fracos e indefesos, os mais dependentes, quiçá os mais ingénuos, que de alguma maneira acreditaram nas boas intenções de lobos com pele de cordeiros, os tais que “viveram acima das suas possibilidades” e que, por não terem sabido cuidar-se, se deixaram enlear nesta teia destruidora que tudo tritura para transformar num único produto final – cifrões.

É claro que para que tudo isto aconteça também é preciso que cada país, cada povo, tenha o azar de ter ao leme dos seus destinos governantes impreparados, incompetentes que se deixem conduzir para o abismo ou, pior ainda, coniventes, que se movam pelo seu próprio pé e vontade, na direção desse mesmo precipício, porque, afinal são feitos da mesma massa, pensam e agem como os que os comandam. É o que tem acontecido, de um modo geral, Europa fora, onde escasseiam os europeístas convictos com coragem para fazer frente ao poder do cifrão; é o que acontece, de forma clara e evidente, em Portugal, onde uma troica nacional nos subjuga, empobrece e destrói, a mando de interesses de outrem, que, afinal, também são os seus.

Com um governo de direita que faz da austeridade a sua bandeira e da liquidação do estado social o seu principal objetivo, de modo a reduzir o papel do Estado ao mínimo para que tudo, ou o mais possível, possa ser controlado pelo capital privado, dando a esta operação o nome pomposo de reforma do Estado;

Com uma maioria parlamentar de direita que dá cobertura e aplauso a toda esta política;

Com um Presidente da República de direita que suporta e protege tudo isto, pouco nos importará que a troyca internacional acabe hoje ou amanhã se as instâncias europeias, os dirigentes, os decisores, os políticos europeus não se capacitarem que a sua ação tem de mudar de rumo no sentido de por as pessoas à frente de todos os outros interesse e, nesse sentido, ajudarem a criar condições para que cada país da União siga nesse rumo. A não ser assim, ficaremos à espera que por cansaço, por saturação, por convicção, ou por uma qualquer inspiração, os Portugueses acordem e acabem com este estado de coisas que começa a ser insuportável!

 

O.C.