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OuremReal

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15.09.12

A banca e o semáforo


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A notícia diz:

“A partir de 1 de Janeiro de 2013, as famílias que tenham créditos em incumprimento ou que apresentem sinais de dificuldades em cumprir os seus encargos junto da banca estarão mais protegidas”, segundo medidas aprovadas pelo conselho de ministros para proteger as famílias em dificuldades económicas.

É, assim, como que a criação de um semáforo numa estrada:

“Sinal amarelo” – se o consumidor ainda não entrou em incumprimento, mas para lá caminha – o banco é obrigado a avisar o consumidor e encontrar medidas para o ajudar a superar as dificuldades.

“Sinal vermelho”, - quando o consumidor entra em incumprimento – o banco é obrigado a entrar num processo de resolução extra judicial, antes de se avançar para a via contenciosa.

Os bancos que não cumprirem incorrem em coimas que poderão ir de 3 000 € a 1,5 milhões de €.

Ou seja: A raposa, que assalta capoeiras e come galinhas para se governar, fica, ela própria, incumbida de proteger a mesma capoeira e defender as ditas galinhas!!!

Claro que estaríamos perante uma história comovente se acreditássemos que o Pai Natal, vem, em cada ano, por aí abaixo, com um trenó puxado por renas, com muitas prendas para os meninos e meninas que se portarem bem! E até desce pelas chaminés!

Mas, como todos sabemos que o Pai Natal não se mete nessas coisas…fica tudo mais complicado!

E a primeira pergunta que ocorre é:

- Esta medida protege mais o banco ou o consumidor?

Parece óbvio que o banco é o mais protegido – nada o impede de manter uma publicidade agressiva, com mais ou menos subterfúgios, nem sempre clara, que muitas vezes leva ao engano dos mais incautos ou atira para o precipício os mais aflitos; continua a estabelecer as “suas” margens de lucro e a impor as suas regras e as cláusulas dos seus contratos e o consumidor pega ou larga; só tem liberdade para mudar de moleiro… de resto… pouco ou nada muda!

Ao alertar o consumidor para o perigo do incumprimento, não é por piedade para com ele, é porque o crédito malparado, consequência da gestão incompetente, gananciosa e ruinosa ao longo dos anos levou à situação que todos conhecemos.

E outra pergunta é:

- Quem vai suportar os custos das tais “medidas que ajudem a superar as dificuldades”?

O banco? Claro que não! Por muitas voltas que o mundo dê…o consumidor pagará, (os que pagam, claro!) sempre, a fatura. Em 10 anos, em vez de 5,ou 15 em vez de 10, ou doutro jeito qualquer, mas sempre, com os respetivos juros. Que o banco estipular!

E, finalmente:

- Então esta lei não tem nenhuma utilidade para o consumidor?

Muito pouca, mas sempre tem! Mais para os distraídos que ficam a saber que escorregar é, neste caso, o mesmo que cair; só pode haver alguma diferença no tamanho do trambulhão! Correspondente à diferença de tom do amarelo para o vermelho do tal semáforo!

E a pergunta escusada:

Por que é que um conselho de ministros perde tempo a fazer uma lei destas?

1º - Para fingir que está preocupado com as dificuldades económicas dos portugueses;

2º - Para proteger os bancos, principalmente;

3º - Porque sabe que os portugueses ainda não perceberam por que motivo se injetam 6 mil milhões de euros num banco falido para depois o vender por 40 milhões e não deve querer repetir mais cenas destas;

4º - Porque no sistema em que vivemos é normal que os bancos tenham uma função social que consiste em viver à custa da “resolução” das dificuldades económicas das pessoas, dificuldades essas que, em muitos casos, são criadas pelos próprios bancos e, quase sempre, direta ou indiretamente, em consequência das políticas dos governos.

 

O.C.