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OuremReal

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02.09.11

Um mau político!


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Que Passos Coelho é um político vulgaríssimo, que nada acrescentou aos conceitos de credibilidade, competência, honestidade e eficiência que, de um modo geral, caraterizam o espetro político nacional, já todos tivemos razões mais do que suficientes para concluir. Dizer uma coisa antes e fazer o contrário depois é normal em políticos de "meia tigela".

Mas Passos Coelho já não é só um político vulgar, nesse sentido. Ele está a ser um mau político; no duplo sentido: primeiro, porque a sua ação se carateriza por uma vulgaridade que passa pela mediocridade, na medida em que não conseguiu encontrar ideias novas para a sua governação, não acrescentou nada ao "déjà vu", vai fazendo mais do mesmo; segundo, porque está a ser mesmo mau, no sentido da agressividade social que está a desenvolver, com o tipo de medidas que toma, com manifesta falta de sensibilidade social, desconhecimento (ou desprezo?) pelas dificuldades duma larga camada social de portugueses que têm que contar muito bem os euros para que não sobre mês e faltem as notas (para muitos nunca chegam, por mais que as contem!). Desprezo por uma classe, dita média, média baixa, que tem vindo e continua a trabalhar, descontar, suportar a maior parte dos sacrifícios exigidos, despedimentos, dificuldades de toda a ordem. Congelamento de salários e pensões; cortes nos salários e nas pensões; imposto extraordinário com o corte de 50% no subsídio de Natal; aumento do iva, com especial destaque nos produtos alimentares; aumento do iva na eletricidade e no gás; aumento do irs.

Mau político, ainda, porque fazendo tudo isto e mais o que hoje é destaque em toda a imprensa, com os cortes na saúde, educação e segurança social, continua, descaradamente, a apregoar que está muito preocupado com os mais humildes, com as famílias mais carenciadas, continua a fingir de robin dos bosques, mas só a fingir, porque entre o diz e o faz vai uma distância tão grande que os passos de Passos não conseguem alcançar. 

Mau político, também, porque se prepara para vender tudo o que for público e vendável, a qualquer preço, com o objetivo de deixar o Estado cada vez mais pobre e menos capaz de intervir nos vários setores da vida nacional, onde a sua ação reguladora deveria ser salvaguardada, permitido ao setor privado dominar conforme seus interesses e necessidades.

Mau político e mau gestor porque, como diz, vai vender a posição do Estado na EDP ao melhor preço para a empresa e não para o Estado; é caso para perguntar se ser primeiro ministro é zelar pelos interesses do Estado, que somos todos nós, ou zelar pelos interesses de uma empresa privada que nos vende aquilo que de todos nós devia ser?

Mau político porque, contrariamente ao que criticou, continua a ir ao beijamão à sr.ª Merckle, ao sr. Sarkozi e por aí adiante.

Mau político porque permite que o sr. Jardim, seu companheiro de partido, continue a gozar com tudo e todos, descaradamente, endividando a região da Madeira, para que o orçamento que todos nós pagamos também pague os seus caprichos, que se traduzem em centenas de milhões de euros.

Mau político porque ainda não foi capaz de explicar aos portugueses quais são os organismos e serviços do Estado que estão a mais e que devem ser extintos; ainda não mostrou aos portugueses o que fez (ou diz que fez) nos vários serviços de cada ministério para reduzir as despesas de funcionamento; como reorganizou/ reestruturou os serviços de cada um desses ministérios em termos, não só da sua estrutura física, mas também a nível de pessoal; que mobilidade levou a cabo para melhorar a eficácia; ou será que deixou tudo mais ou menos na mesma, mudando só os boys?  

Desengravatar o ministério da agricultura, do mar e do ordenamento do território, mostrar o sr. ministro da segurança social a andar, diariamente, na sua scooter é simpático, mas está longe de ser alguma coisa. Tão pouco basta publicar a lista das nomeações que ministros, secretários e subsecretários de estado, ou seja lá quem for, vão fazendo; importa, sobretudo, saber da necessidade e do processo como foram feitas essas nomeações, para que possamos ficar de consciência tranquila e não ficar com a ideia de que o negócio dos boys, afinal, é mesmo uma moléstia, endémica, com tendência para se transformar em incurável, criticável nos outros, mas perfeitamente normal, legal, honesta, (e mais adjetivos similares) quando o sujeito da ação muda para o lado de cá. E o problema da transparência passa a ser uma questão secundária, a ter mais a ver com uma certa neblina que ora vai ora vem, conforme o ângulo de visão do observador.

Tão pouco importa saber os valores ou rendimentos dos sr.s ministros. A lei manda publicá-los e nada tenho contra. Mas não consigo perceber em que é que isso interessa para saber se serão bons ou maus governantes. Não sou dos que acham que os governantes aceitam os cargos para se "abotoarem", passe a expressão, mas sou daqueles que admitem que haja quem se possa aproveitar da situação - serão a exceção - e tem de haver mecanismos para detetar e denunciar essas situações; e as leis menos propiciadoras; e a justiça tem de funcionar; apenas isso.

Mau político porque afirmar que o que está a acontecer na Líbia é uma espécie do 25 de Abril de 1974 em Portugal é, no mínimo, não perceber nada do que está a acontecer na Líbia e das motivações de tudo aquilo e não ter percebido nada do que aconteceu em Portugal há 37 anos. Passos Coelho era um jovem, de boas famílias, não sabia o que eram dificuldades, tinha uma vida tranquila e tempo para as irreverências da sua juventude, não teve que fazer a guerra colonial, não teve que trabalhar para viver e estudar, nem teve que se cuidar com o fazia e dizia como o tiveram de fazer muitos dos que nasceram umas décades antes; portanto não admira que não tenha percebido o 25 de Abril; deve ter ficado com uma conceção do momento, sem aprofundar as motivações, as causas e os propósitos dos que o fizeram, dos que o tornaram possível e dos que o suportaram, deve ter-se empolgado com a euforia das ruas, embevecido com os ideais do momento, e a sua admiração por Álvaro Cunhal não o terá deixado compreender, em profundidade, que havia mais 25 de Abril para além daquele que Cunhal preconizava. Tanto que não percebeu que compara a revolução Líbia, atual, com o que se passou em Portugal há 37 anos. Curiosamente, também parece não ter aprendido nada com Cunhal, que admirava, porque o que está a fazer se coloca na antítese do que era suposto fazer se seguisse quem admirou naqueles anos de euforia nacional. Só posso concluir que a sua irreverência burguesa apenas se refugiou, ocasionalmente, por comodidade e conveniência, na outra irreverência, ousada, sentida e revolucionária, no verdadeiro sentido da expressão, que se vivia em redor da figura que foi Álvaro Cunhal; passada a "febre", tudo estabilizou no sítio onde sempre esteve - direita burguesa - para continuarmos com uma expressão muito usada naqueles tempos. A política que temos confirma-o!

Só falta que se mude a Constituição para que nos aproximemos, ainda mais, dos tempos de antes de 1974.

Ou será que é preciso haver outra revolução?

Mas que não seja igual à da Líbia!

 

O.C.