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OuremReal

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01.08.10

Chumbar ou não, eis a questão!


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Vão longe os tempos em que, no final de cada ciclo de estudos, os estudantes eram confrontados com um exame que, supostamente, visava saber dos conhecimentos adquiridos e que, só por si, ditava o “aprovado” ou “reprovado” que todos temiam.

Eram exames compostos de uma prova escrita, nacional e universal, o mesmo é dizer que igual para todos, e de uma prova oral, para os que na escrita tinham média suficiente para aceder e essa segunda parte do exame.

Esses exames aconteciam no final da então “primária”, antiga 4ª classe, actual 4º ano; no 2º ano do liceu, actual 6º ano; no 5º ano do liceu, actual 9º ano; no 7º ano do liceu, que dava acesso ao ensino superior, correspondente ao actual 12º ano.

Uma prova escrita com todos os cerimoniais que, ao que suponho, ainda hoje se verificam e uma prova oral que, vista à luz de conceitos, usos e costumes actuais, mais se assemelharia a uma cena de um filme de terror.

A primeira preocupação era saber quem fazia parte do júri, principalmente, o nome do presidente. Havia gente, com fama (e proveito) capaz de fazer arrepiar o mais afoito dos candidatos. Gente que fazia gala em pôr em evidência toda essa fama. Eram os terrores da altura!

Um júri, composto, no mínimo, por três professores/inquiridores, o aluno à sua frente e ao dispor das suas perguntas, uma sala cheia de gente para ver como era e poder contar como foi, numa sessão aberta e contínua, para episódios de + ou – 15 minutos por cabeça, tanto era o tempo de que cada aluno dispunha para “salvar” o ano que, nalguns casos, poderia representar o sucesso ou insucesso de toda uma vida.

Eram quinze minutos terrivelmente compridos!

Nessa época não se ouvia falar em crianças ou jovens traumatizados, mas que haveria muito boa gente que demoraria muito tempo a recuperar do “cagaço”, não duvido.

Que ninguém cuidava de saber de necessidades educativas especiais de A ou de B, também me parece que era norma. Quem não aprendia como os outros e tinha dinheiro, ia para as “explicações”; quem não tinha dinheiro, sujeitava-se.

Que quem não sabia, ou tinha azar, chumbava, também é um facto. Repetia o ano, se o orçamento e as vontades familiares aguentavam; caso contrário, a solução era mudar de vida …

Era assim! E, certamente, ninguém pretenderá que assim volte a ser!

E, embora nas últimas três décadas se tenham vindo a introduzir alterações no sistema de avaliação de alunos e escolas, o que parece é que não se chega a conclusões concretas para se saber o que está bem e deve continuar e o que não está bem e deve ser alterado. Nem qual a melhor maneira de se fazerem as correções.

E isto, esta falta de informação, incomoda. E incomoda mais, ainda, quando se é confrontado com o anúncio de que a sr.ª ministra da educação começa a pôr a hipótese de se vir a acabar com os “chumbos”, o que permite que cada um comece a especular à sua maneira e a comunicação/informação fique baralhada. Não sei se a intenção é mesmo baralhar para que o assunto se discuta sem pressupostos que condicionem essa discussão, ou se é falta de jeito.

Se é falta de jeito, é mau!

Se é estratégia, também não será a melhor, porque vamos andar a perder tempo e a deitar mais lenha para a fogueira e calor é coisa que já temos em demasia.

Daí, eu pensar que a medida, ou a intenção da medida, melhor dizendo, devesse ser acompanhada de fundamentos sérios e fortes para que possamos saber do que estamos e por que estamos a falar.

Se a medida visa ajudar quem precisa, mesmo, de ajuda talvez a sua generalização seja questionável. Se pretende “disfarçar” o incómodo dos números do insucesso, é lamentável. Se queremos trabalhar para a estatística estamos a enganarmo-nos a nós próprios. Se se pretende dar uma mãozinha aos cábulas, estaremos a desmotivar quem trabalha. Se queremos proteger absentismos e maus comportamentos então ter-se-ão que rever o conceito e a função da escola.

De facto, se a escola ainda visa ajudar a preparar as crianças para a vida, como se diz,  há um pressuposto que não poderá, nunca, ser esquecido: “ a vida será tudo, menos facilidades”. Logo, há uma pergunta que não poderá deixar de se pôr:

Como é que alguém a quem tudo foi facilitado, pode vir a enfrentar, com sucesso, as dificuldades da vida que terá pela frente?

 

O.C.

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