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OuremReal

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07.12.08

Os professores, a ministra e a política


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Já toda a gente percebeu que a "guerra" entre os professores e o ministério da educação tem duas componentes bem distintas. Uma que tem a ver com a educação, propriamente dita, e a outra com motivações, claramente, político-partidárias.

No que respeita ao problema da educação:

Por um lado, é evidente a razão dos professores nalgumas das suas reivindicações, razões que têm muito mais a ver, principalmente, com as alterações do estatuto da carreira docente e do estatuto da aposentação, e as implicações que a sua aplicação tem na sua vida profissional, do que com o problema da avaliação, que é o que está mais na "berra", mas que acho perfeitamente secundário.

Por outro lado, é gritante a falta de sensibilidade, e de visão, da ministra da educação ao querer mudar, drasticamente, tanta coisa ao mesmo tempo, sem respeito pelos alvos principais dessas mudanças, que são os professores.

Começou por desrespeitá-los, quando pretendeu convencer a opinião pública que todo o mal das escolas e insucesso dos alunos era culpa dos professores; continuou, quando ignorou direitos adquiridos ao longo de muitos anos e não respeitou as expectativas de quem inicia uma carreira com determinadas regras e, de um momento para o outro, vê essas regras alteradas, sem que se entendam bem o porquê e o para quê; não os respeitou ao ignorar todo o passado de uma classe que só depois do 25 de Abril de 1974 é que conseguiu ter alguma atenção do poder político; continuou a não os respeitar ao ignorar as opiniões de quem, conhecedor da realidade, apontava as dificuldades e as rejeições que a implementação de muitas das medidas iria encontrar; menosprezou a sua força ao tentar dividir a classe com a invenção de uma nova categoria de professores, os titulares; falhou, por evidente inabilidade política, ao deixar que a sua teimosia chegasse ao ponto a que chegou, com aparentes cedências, aqui e ali, para desdizer, no dia seguinte, aquilo que se disse que tinha dito antes; a senhora ministra não soube gerir, politicamente, as coisas, ao deixar que a sua credibilidade caísse por completo e ao dar todo o protagonismo a líderes sindicais, que até parece que  têm lugar cativo em tudo quanto é telejornal e falam como se fossem detentores de toda a verdade.

A segunda componente do problema, a político-partidária, está a ficar cada vez mais clara. Os principais sindicatos de professores, FNE e FENPROF, são representados por personagens ligadas, respectivamente, ao PSD e PCP,  forças políticas adversas ao actual governo. O rosto mais visível da contestação, o que dá o tom à dureza do discurso, é um conhecido e determinado militante do partido comunista, que, para além dos incentivos públicos do seu secretário geral, poderá estar a sonhar com uma nova candidatura a deputado nas próximas legislativas.

É evidente que há uma convergência de interesses em toda esta luta!

Os partidos da oposição precisam combater o governo e aproveitam todas as oportunidades, e em todas as frentes, para desacreditarem a sua acção; mesmo que não digam que alternativa têm; basta que se colem à contestação, agitem um pouco mais o que já está agitadíssimo e... quanto pior, melhor!

Juntemos mais um pormenor: na esquerda, está a travar-se uma luta, ferozmente silenciosa, por protagonismo, por posicionamento no espectro político, entre o PCP e o Bloco; ambos querem ser a terceira força política nacional; mas só uma o conseguirá; qual será? certamente a que conseguir acertar nas melhores causas, capitalizar mais simpatia e, no final, mais votos.

Os professores, que na sua grande maioria nada terão a ver com a força política que orquestra toda esta luta, só têm que ter o cuidado (e a necessidade) de saber aproveitar os ventos a favor, afirmar a sua vontade e fazer com que a sua luta tenha sucesso. Espera-se que não se deslumbrem, que não confundam o que é essencial  para a sua causa com o que é importante para a causa dos outros. Para que não se vire o feitiço contra o feiticeiro. Ou seja: o pior que podia acontecer  seria que esta luta partidária, que eles estão a alimentar, viesse a atingir proporções tais, que a instabilidade das escolas viesse a afectar, de tal modo, a vida dos alunos e das famílias que os encarregados de educação se pusessem contra os professores. Porque os partidos políticos têm pouco a perder com isto. Se correr bem, óptimo; se correr mal... logo mudam de táctica!

 

O.C.